LGPD nos sites das agências de marketing no Brasil: o que 50 agências publicam — e o que falta
As agências que vendem captação de leads quase sempre têm uma política de privacidade. Mas dois itens costumam faltar no próprio site: o nome de quem responde pelos dados e um aviso no formulário onde o dado é coletado.
Resposta direta
Numa auditoria dos sites de 50 agências de marketing de maior visibilidade no Brasil, feita em outubro de 2026, 83% tinham política de privacidade localizável. Mas só 32% publicavam identidade e contato do encarregado de dados, que é um dos dois itens que a LGPD exige no site (art. 41, §1º). Além disso, só 1 em cada 10 formulários de contato trazia aviso de privacidade.
Em resumo, o mercado cumpre a parte mais visível e menos trabalhosa, que é ter a política. Falha justamente no ponto em que o dado é coletado e no item que dá ao titular alguém a quem recorrer.
1. O que a lei exige e o que é boa prática

EVIDÊNCIA A LGPD (Lei 13.709/2018) não fala em rodapé, checkbox nem banner. Ela fixa obrigações de resultado, e cada site escolhe como cumpri-las. Por isso, este estudo separa os itens em duas camadas:
| Item auditado | Camada | Base |
|---|---|---|
| Informação sobre o tratamento de dados acessível (política de privacidade) | Mínimo legal | LGPD, art. 6º, VI (transparência) e art. 9º (acesso facilitado à informação) |
| Identidade e contato do encarregado divulgados publicamente | Mínimo legal | LGPD, art. 41, §1º, “preferencialmente no sítio eletrônico”. Pequeno porte pode substituir por canal de comunicação (Res. CD/ANPD nº 2/2022, art. 11) |
| Link de privacidade no rodapé | Boa prática | Forma usual de tornar a informação “facilitada” (art. 9º) |
| Aviso de privacidade junto ao formulário | Boa prática | Informa no ponto de coleta; reforça transparência |
| Checkbox de consentimento | Boa prática | Exigível só quando a base legal é consentimento (art. 8º); contato comercial pode usar art. 7º, V |
| Banner de cookies | Boa prática | Guia Orientativo sobre Cookies da ANPD (2022), documento de orientação, não norma |
INFERÊNCIA Na prática, a ausência de uma boa prática não prova que a lei foi descumprida. Já a ausência de encarregado e de canal, numa agência que não seja de pequeno porte, é um descumprimento direto do art. 41.
2. Amostra e método
- Lista de 50 agênciasAs de maior visibilidade no país, a partir dos rankings do Cenp-Meios 2025 e do Prêmio iBest e de agências digitais e de performance com presença nacional. É uma amostra de conveniência, não aleatória.
- 12 excluídasO site da agência não pôde ser identificado com segurança: o domínio redirecionava para outra empresa, pertencia a outra entidade ou não foi encontrado. Nenhum endereço foi testado por palpite depois da identificação inicial.
- 38 sites na amostra, 25 lidosEm 11 sites o robots.txt ou o servidor bloquearam a leitura automatizada. Em outros 2, o conteúdo dependia de JavaScript e não apareceu no HTML.
- Leitura e codificaçãoForam lidas a página inicial, a de contato e a política de privacidade, codificadas em sim, não, não verificável ou não registrado. Cada percentual usa como base só os sites em que o item pôde ser determinado.
- Publicação agregadaA base nominal fica em planilha de uso interno. Esta página publica apenas números agregados (ver limitações).
Conflito de interesse declarado: o autor dirige a Negócio no Mapa, agência de marketing e dados. A Negócio no Mapa não foi incluída na amostra.
3. Resultados
EVIDÊNCIA Percentual de sites que atendem a cada item, entre os sites em que o item pôde ser determinado.
* Banner de cookies está subcontado: na maioria dos sites ele carrega por JavaScript, que a leitura do HTML não enxerga. A base mostra quantos sites tinham o item determinável; as bases variam porque um mesmo site pode ter um item verificável e outro não.
Encarregado de dados: o item que mais falta
EVIDÊNCIA Dos 19 sites com o item determinável:
- 6 publicavam identidade e contato do encarregado. Em um caso, o encarregado era um escritório de advocacia; em outro, um e-mail dedicado do tipo dpo@.
- 2 publicavam só parte: um encarregado nomeado sem nenhum canal de contato, ou um e-mail genérico de privacidade do grupo global, sem referência à LGPD.
- 11 não identificavam encarregado nem canal específico. Em pelo menos um caso, a política citava a LGPD, mas não dizia a quem o titular deveria se dirigir.
Em outros 6 sites acessíveis, a política não renderizou no HTML ou não foi localizada, e o item ficou indeterminado.
Formulários: coleta sem aviso
EVIDÊNCIA 10 dos 19 sites com o item determinável tinham formulário de contato. Desses, 9 pediam nome, e-mail e telefone sem nenhuma menção a privacidade junto aos campos. O único com aviso usava um checkbox que dizia, em essência, “autorizo o contato e concordo com a Política de Privacidade”. Em um dos 9 havia checkbox, mas ele remetia aos termos de uso, não à política de privacidade.
4. Digitais, criativas e globais
Todos os formulários estão aqui
Os 10 formulários encontrados eram de agências digitais. Nelas, 4 de 10 com o item determinável publicavam o encarregado. É o grupo que mais coleta dado pelo site e, ao mesmo tempo, o que menos avisa no formulário.
Contato sem formulário
Nenhuma das agências criativas lidas tinha formulário: o contato era por e-mail ou telefone. 2 de 8 com o item determinável publicavam o encarregado. Foi também o grupo com mais sites bloqueados à leitura.
Política global, sem encarregado LGPD
Nenhum dos 5 sites globais acessíveis identificava um encarregado para o Brasil. Dois indicavam um DPO só para União Europeia e Reino Unido; um oferecia um e-mail de privacidade genérico.
Um terço fechado ao robô
13 dos 38 sites não puderam ser lidos: 11 por bloqueio e 2 por dependerem de JavaScript. Para buscadores e IAs que leem HTML, essas páginas também dizem pouco.
INFERÊNCIA Os números por perfil são pequenos e servem para descrever, não para comparar. A diferença real entre os grupos está no canal: quem usa formulário assume uma obrigação de informar no ponto de coleta que quem recebe por e-mail não tem da mesma forma.
5. O que os números dizem sobre o mercado
INFERÊNCIA A política de privacidade virou item padrão de site, provavelmente gerada por modelo ou por escritório e colocada no rodapé. O encarregado, ao contrário, exige uma decisão interna: nomear alguém ou contratar alguém, e assumir que essa pessoa vai responder. É essa decisão que a maioria das agências ainda não tomou ou não tornou pública.
INFERÊNCIA O formulário sem aviso é a contradição mais visível do setor. As mesmas agências que configuram formulários de captação, pixels e listas de remarketing para os clientes deixam o próprio formulário sem a linha que custa menos: “ao enviar, você concorda com a Política de Privacidade”.
HIPÓTESE A baixa publicação do encarregado se explica, em parte, pelo enquadramento de muitas agências como agentes de pequeno porte, que podem dispensá-lo. Se for o caso, o que falta nesses sites não é o encarregado, mas o canal de comunicação que a mesma resolução exige. A hipótese não foi testada, porque o porte das agências não foi verificado.
HIPÓTESE Para GEO, sites que bloqueiam robôs e não publicam informações básicas de governança perdem sinais de confiança que buscadores e IAs usam para avaliar uma empresa. Ainda não há medição publicada que relacione conformidade com LGPD a citação por IA.
6. Checklist para o site de uma agência
| # | Ação | Camada | Esforço |
|---|---|---|---|
| 1 | Publicar na política o nome e o contato do encarregado (ou o canal de comunicação, se for de pequeno porte) | Mínimo legal | Baixo, depois da decisão interna |
| 2 | Garantir que a política seja localizável e legível sem JavaScript | Mínimo legal | Baixo |
| 3 | Link “Privacidade” no rodapé de todas as páginas | Boa prática | Mínimo |
| 4 | Linha de aviso com link para a política junto a cada formulário | Boa prática | Mínimo |
| 5 | Checkbox não marcado quando a base legal for consentimento (newsletter, por exemplo) | Boa prática | Baixo |
| 6 | Banner de cookies que permita recusar os não necessários | Boa prática | Médio |
7. Limitações
- Amostra de conveniência. 50 agências de maior visibilidade não representam as milhares de agências pequenas do país.
- Leitura só do HTML. Formulários, banners e políticas carregados por JavaScript ficam invisíveis. “Não detectado” não significa “não existe”, sobretudo para cookies.
- Porte não verificado. A dispensa de encarregado para pequeno porte não foi checada, então a ausência de encarregado não é tratada como infração individual.
- Páginas lidas. Só foram lidas a home, o contato e a política. Um item publicado em outra página pode ter ficado de fora.
- Fotografia de outubro de 2026. Sites mudam; os números descrevem o mês da coleta.
- Classificação por perfil. A divisão entre digital, criativa e mídia é do autor.
Por esses limites, o estudo publica só resultados agregados. A base nominal existe, mas uma nota individual não seria justa com uma agência cujo site não pôde ser lido por completo.
8. Perguntas frequentes
O que a LGPD exige de verdade no site de uma agência de marketing?
Duas coisas, no mínimo: informação clara e acessível sobre o tratamento de dados (arts. 6º, VI, e 9º) e a identidade e o contato do encarregado pelo tratamento de dados pessoais, divulgados publicamente, de preferência no site (art. 41, §1º). Link no rodapé, aviso junto ao formulário, checkbox e banner de cookies são formas de cumprir isso bem, mas a lei não exige cada um deles com esse formato.
Quantas agências publicam o encarregado de dados (DPO) no site?
Entre os 19 sites em que foi possível determinar o item, 6 (32%) publicam identidade e contato do encarregado. Outros 2 (11%) publicam só parte: um nome sem canal de contato ou um e-mail genérico de privacidade global.
Quantos formulários de agências avisam sobre privacidade?
Dos 10 sites com formulário de contato lido, apenas 1 trazia aviso de privacidade junto ao formulário, com checkbox de concordância com a política. Os outros 9 coletavam nome, e-mail e telefone sem nenhuma menção a privacidade no formulário.
Formulário sem checkbox de LGPD é infração?
Não por si só. O checkbox só é necessário quando a base legal do tratamento é o consentimento (art. 8º). Um formulário de contato comercial pode se apoiar em outras bases, como procedimentos preliminares a contrato (art. 7º, V). O que a lei exige é que a pessoa tenha acesso fácil à informação sobre o uso dos dados.
Agência pequena precisa ter encarregado de dados?
Não necessariamente. A Resolução CD/ANPD nº 2/2022 dispensa agentes de tratamento de pequeno porte de indicar o encarregado, desde que mantenham um canal de comunicação com o titular. Por isso, este estudo não trata a ausência de encarregado como infração: o porte das agências não foi verificado.
A maioria das agências tem política de privacidade?
Sim. Em 20 dos 24 sites em que o item pôde ser determinado (83%), havia uma política de privacidade localizável. O problema está menos na existência da política e mais no que ela contém e em onde aparece: a política existe, mas o encarregado e o aviso no ponto de coleta, em geral, não.
Banner de cookies é obrigatório pela LGPD?
A LGPD não menciona banner de cookies. O Guia Orientativo sobre Cookies da ANPD (2022) recomenda informar e, quando a base for consentimento, colher o consentimento para cookies não necessários. Nesta auditoria, banners foram detectados em 3 sites, mas o número está subcontado, porque a maioria dos banners carrega por JavaScript, invisível ao método usado.
Por que o estudo não divulga o nome das agências?
Porque o método tem limites que tornam o resultado individual frágil: leitura só do HTML servido, porte das agências não verificado e itens que podem existir em páginas não lidas. Os números agregados são robustos para descrever o mercado; a nota de uma agência específica não seria.
Agências digitais cumprem mais a LGPD do que as criativas?
Os dados não permitem afirmar isso. Todos os 10 formulários encontrados estavam em agências digitais e de performance; as agências criativas lidas recebem contato por e-mail ou telefone, sem formulário. Na publicação do encarregado, os números por perfil (4 de 10 nas digitais, 2 de 8 nas criativas) são pequenos demais para comparação.
Como uma agência pode ficar em conformidade no site?
Publicar o nome e o contato do encarregado (ou do canal de comunicação, se for de pequeno porte) na política de privacidade; deixar a política a um clique de qualquer página, no rodapé; colocar uma linha de aviso com link para a política ao lado de cada formulário; e, se a base for consentimento, um checkbox não marcado. Para cookies não necessários, um banner que permita recusar.
9. Fontes
- Brasil — Lei 13.709/2018 (LGPD), arts. 6º, 7º, 8º, 9º e 41
- ANPD — Resolução CD/ANPD nº 2/2022, regulamento de aplicação da LGPD para agentes de tratamento de pequeno porte
- ANPD — Resolução CD/ANPD nº 18/2024, regulamento sobre a atuação do encarregado
- ANPD — Guia Orientativo: Cookies e Proteção de Dados Pessoais (2022)
- Base primária: sites das agências auditadas, lidos em outubro de 2026 (planilha nominal de uso interno)
10. Sobre o autor
Bio curta
Raphael Sousa Pereira é profissional, pesquisador e consultor em SEO, Generative Engine Optimization (GEO), inteligência artificial e engenharia de prompt, CEO e fundador da Negócio no Mapa, em Porto Alegre, e investigador de dados sobre IA e mercado.
Bio média
Raphael Sousa Pereira é CEO e fundador da Negócio no Mapa, agência de inteligência de dados e marketing digital em operação desde 2016, com sede em Porto Alegre (RS) e unidades em Brasília, Blumenau e São Paulo. É pesquisador e consultor em Generative Engine Optimization (GEO), com quatro trabalhos publicados com DOI no Zenodo, criador do PANDORA, do GEO Score, do conceito de Autoridade Sintética e do framework GBFA (Generative Brand Fidelity Engineering).
Como investigador de dados, rastreia números em circulação até a fonte original, corrige os que estão distorcidos e publica estudos com dados abertos e verificáveis, como a análise de 58 vagas brasileiras de engenheiro de IA da Série Cargos 2026. Fundou a Verbo Vivo Publicações, selo com mais de 100 obras técnicas, e atua em auditoria de manipulação algorítmica e ciência de mercado em GEO.