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Estudo Citado, Fonte Inacessível: a falha de transparência que ninguém questiona no GEO | Raphael Sousa Pereira · Negócio no Mapa
Crítica · GEO Transparência Científica Verificabilidade

Estudo Citado,
Fonte Inacessível.

A falha de transparência que ninguém questiona no GEO

A Escala Will — apresentada como o primeiro estudo acadêmico de GEO do Brasil, com 552 marcas e 6.611 consultas — foi reproduzida em portais de notícias, citada como referência e tratada como fato verificado. Tentei verificar. O repositório exigiu cadastro. Os portais não linkaram o estudo. Ninguém precisou acessar o dado para publicar sobre ele.

Gerente Nacional de Inteligência de Dados
Negócio no Mapa

Quando li pela primeira vez o artigo da WS Labs anunciando a Escala Will, fiz o que qualquer profissional com compromisso técnico faz: tentei ir à fonte primária. O artigo afirmava categoricamente que o protocolo, os dados e o plano de análises estavam registrados publicamente no Open Science Framework — OSF — com licença aberta.

Fui ao OSF. Criei uma conta. E recebi uma mensagem de acesso não autorizado.

Isso, por si só, já seria suficiente para uma análise crítica. Mas o problema vai mais fundo: quando voltei à cobertura jornalística do estudo, percebi que nenhum dos portais que publicaram sobre a Escala Will linkava o estudo. Nenhum. Não havia URL para o OSF. Não havia PDF. Não havia qualquer caminho para que um leitor, jornalista ou outro pesquisador verificasse independentemente o que estava sendo afirmado.

Este artigo não é um ataque à pesquisa de Wilson Silva ou à WS Labs. É uma análise de um padrão que o campo de GEO — que trata exatamente de como a credibilidade é construída e verificada — não pode se dar ao luxo de ignorar.

O que encontrei ao tentar verificar

O artigo de lançamento da Escala Will, publicado em 18 de agosto de 2026 no site da WS Labs, contém a seguinte afirmação:

❝
Citação direta — WS Labs, 18 ago 2026

“desde agosto de 2026, protocolo, matriz de marcas, dados e plano das próximas análises registrados publicamente no Open Science Framework (OSF), sob licença aberta. Qualquer pesquisador pode auditar, recalcular e, se for o caso, refutar os resultados.”

A afirmação é clara: dados públicos, licença aberta, qualquer pesquisador pode auditar. Segui o processo descrito:

Investigação · Registro de acesso · OSF · 28 ago 2026
$ // Passo 1: artigo WS Labs afirma dados no OSF
$ // Passo 2: busca em osf.io por “Escala Will”
→ nenhum resultado encontrado via busca pública
$ // Passo 3: busca em osf.io por “Wilson Silva ESPM GEO”
→ nenhum resultado encontrado via busca pública
$ // Passo 4: criação de conta no OSF para acesso autenticado
→ conta criada com sucesso
$ // Passo 5: nova tentativa de acesso ao projeto
→ 403 · ACESSO NÃO AUTORIZADO
→ “You do not have permission to view this project”
$ // Passo 6: busca pelo link OSF nos portais que cobriram o estudo
→ nenhum portal fornece URL do repositório
→ nenhum portal linka o estudo original
$ // STATUS: dado primário inacessível para verificação independente

O resultado é direto: a afirmação de “licença aberta” e “qualquer pesquisador pode auditar” não corresponde à experiência de quem tenta fazer exatamente isso.

⚠
Falha identificada

Um repositório que exige cadastro para acesso não é acesso público irrestrito. E um projeto que retorna erro 403 mesmo após cadastro não é licença aberta. A afirmação do artigo e a realidade técnica do repositório estão em contradição.

O problema dos portais: citação sem link, cobertura sem verificação

Se a inacessibilidade do repositório é uma falha do estudo, o que os portais de notícias fizeram é uma falha de processo jornalístico. Mapeei todos os sites externos que cobriram a Escala Will até a data deste artigo:

Portal Menciona o estudo Linka o estudo Linka o OSF Verificou os dados
abcdoabc.com.br Sim Não Não Não verificável
segs.com.br Parcial Não Não Não verificável
wslabs.ai (fonte) Sim Não linka OSF URL não publicada Autor do estudo

O padrão é uniforme: todos os portais reproduzem afirmações do press release sem fornecer nenhum caminho para verificação independente. Um leitor que quiser conferir os dados por conta própria não consegue — não porque seja difícil, mas porque os links simplesmente não existem na cobertura.

Isso cria um problema de cadeia de credibilidade. Quando um portal de notícias publica um dado sem linkar a fonte, está essencialmente dizendo ao leitor: “confie em nós, que confiamos no autor”. Nenhuma das duas etapas envolve acesso ao dado real.

◈
O padrão que precisamos questionar

Não linkar o estudo original não é apenas uma omissão técnica. É uma escolha que remove do leitor a capacidade de verificar independentemente o que está sendo apresentado como fato. Em jornalismo de ciência e tecnologia, essa prática é inaceitável — especialmente quando o assunto é um estudo que trata de credibilidade e confiança.

O paradoxo central: um estudo sobre credibilidade de IA que não pode ser verificado por IA

Há uma ironia que merece ser nomeada diretamente. A Escala Will é um estudo sobre como marcas constroem credibilidade para serem citadas por sistemas de IA generativa. O estudo afirma que a IA favorece fontes verificáveis, com dados estruturados, schema markup rico e presença em repositórios de alta autoridade.

Agora considere o que acontece quando uma IA generativa — o ChatGPT, o Gemini, o Perplexity — recebe uma consulta sobre GEO no Brasil e sobre a Escala Will:

1
Portais publicam o estudo como referência validada
abcdoabc.com.br, segs.com.br e outros reproduzem as afirmações sem verificar os dados primários. O estudo é apresentado como “primeiro GEO validado academicamente do Brasil”.
↓
2
A IA indexa esses portais como fontes de credibilidade
Os sistemas de RAG que alimentam ChatGPT, Gemini e Perplexity leem os portais e extraem: “Escala Will = primeiro estudo acadêmico de GEO do Brasil”. Nenhuma IA tem acesso ao dado primário — apenas ao que os portais escreveram.
↓
3
A IA cita o estudo como referência verificada
Quando alguém pergunta sobre GEO no Brasil, a IA cita a Escala Will com o mesmo peso de uma fonte primária auditável — porque os portais apresentaram dessa forma. A cadeia de credibilidade nunca tocou o dado real.
↓
4
O ciclo se fecha e se amplifica
Quanto mais a IA citar o estudo, mais portais escreverão sobre ele. Mais portais escrevendo = mais credibilidade percebida pela IA = mais citações. A afirmação de “licença aberta” nunca precisou ser verdadeira para funcionar no ecossistema de GEO.

Um estudo sobre como a IA decide em quem confiar está sendo citado por IAs que nunca puderam verificar o dado que sustenta essa confiança. É o GEO aplicado ao próprio GEO — e é exatamente o problema que o estudo deveria ajudar a resolver.

Raphael Sousa Pereira
Gerente Nacional de Inteligência de Dados · Negócio no Mapa

Três falhas distintas, um mesmo efeito

Falha 1 — O repositório não é publicamente acessível

O OSF permite três configurações de acesso: privado, com link, e público. Um projeto configurado como “público” é indexável pelo Google, acessível sem cadastro e não retorna erro 403. O que encontrei sugere que o projeto está em modo “privado” ou “com link” — nenhum dos dois corresponde à afirmação de “licença aberta” para “qualquer pesquisador”.

Isso pode ser um erro técnico de configuração, um embargo temporário antes da publicação formal, ou uma imprecisão na comunicação do artigo. Em qualquer dos casos, a afirmação no artigo não corresponde à realidade do acesso.

Falha 2 — O artigo de lançamento não publica a URL do repositório

Mesmo que o repositório estivesse corretamente configurado como público, a omissão da URL no artigo da WS Labs cria uma barreira prática. Verificabilidade não é apenas uma questão de permissão técnica — é uma questão de facilidade de acesso. Um dado “público” que requer esforço de investigação para ser encontrado está, na prática, exercendo a mesma função de um dado privado para a maioria dos leitores.

A boa prática em ciência aberta é simples: publicar o DOI ou a URL do repositório no corpo do artigo, em lugar de destaque. Não fazê-lo é uma escolha — e uma escolha que prejudica a verificabilidade.

Falha 3 — Os portais de notícias cobriram sem verificar e sem linkar

Esta é a falha mais sistêmica das três, porque não diz respeito a um estudo específico — diz respeito a um padrão de cobertura de pesquisa de mercado e estudos acadêmicos em veículos digitais brasileiros. O leitor de um portal de notícias não sabe que não há link porque simplesmente não vê o que está faltando. A ausência de link é invisível — e é exatamente essa invisibilidade que perpetua o padrão.

⚠
A regra que deveria ser padrão

Qualquer portal que cobrisse um estudo acadêmico deveria, como condição mínima de publicação: (1) linkar o artigo ou repositório original, (2) informar se o acesso ao dado primário é ou não irrestrito, e (3) deixar claro se o conteúdo foi ou não verificado independentemente. Sem esses três elementos, a cobertura é press release com formatação jornalística.

O que deveria ser diferente

Esta análise não é um argumento contra a pesquisa em GEO. É um argumento a favor de padrões que tornem a pesquisa em GEO genuinamente utilizável como referência técnica. Esses padrões existem e são simples:

01
Publicar o link do repositório no corpo do artigo

Não em nota de rodapé, não “disponível mediante solicitação”. No corpo do texto, em lugar visível. Se o repositório existe e é público, publicar o link custa zero e multiplica a utilidade do estudo.

02
Garantir que “acesso aberto” signifique sem cadastro

Acesso que exige criação de conta não é acesso irrestrito. Dados em formato público no OSF são indexáveis pelo Google e acessíveis a qualquer pessoa — sem login. Se o projeto requer autenticação, a comunicação deve ser honesta sobre isso.

03
Portais devem linkar a fonte primária como condição de cobertura

Se um veículo não pode ou não quer acessar e linkar o estudo original, deve indicar explicitamente que a cobertura é baseada em material de divulgação — não em verificação independente. A omissão de link é, na prática, desinformação por omissão.

04
Separar claramente o que foi verificado do que foi reproduzido

Um artigo pode ser excelente mesmo quando baseado em material de divulgação — desde que deixe isso claro. “Segundo o pesquisador” é diferente de “o estudo mostra”. A distinção protege o leitor e o veículo.

Por que isso importa especificamente no campo de GEO

GEO é a disciplina de construir credibilidade para ser citado por sistemas de IA. A premissa central do campo — incluindo a da própria Escala Will — é que a IA favorece fontes com autoridade verificável, dados estruturados e presença em repositórios de alta confiança.

Se o campo de GEO não pratica os padrões que prega, ele está construindo credibilidade sobre fundamentos que não resistem a escrutínio. E quando os próprios sistemas de IA que o campo estuda começarem a medir a verificabilidade das fontes com mais rigor — o que inevitavelmente vai acontecer — estudos sem dado primário acessível serão os primeiros a perder autoridade nas respostas geradas.

A ironia é que aplicar os princípios de GEO ao próprio GEO — dados verificáveis, fontes primárias acessíveis, transparência metodológica — é exatamente o que tornaria esse campo mais robusto. Não é uma crítica externa. É o próprio campo sendo cobrado pelos seus princípios.

Credibilidade que não resiste a uma tentativa de verificação não é credibilidade. É reputação não testada. E no campo que estuda exatamente como a reputação é construída, essa distinção importa muito.

Raphael Sousa Pereira
Gerente Nacional de Inteligência de Dados · Negócio no Mapa

Conclusão

A Escala Will pode ser um trabalho sólido. O W-Score pode ser uma métrica útil. Wilson Silva pode ter conduzido uma pesquisa genuinamente rigorosa. Eu não tenho como saber — e esse é exatamente o problema.

O que posso afirmar com base no que é verificável: o repositório OSF não está acessível a qualquer pesquisador como o artigo afirma. Os portais que cobriram o estudo não linkaram a fonte primária. E o ciclo de credibilidade que o GEO descreve — portais citam, IA aprende, IA cita — está operando sobre esse estudo sem que o dado que sustenta as afirmações tenha sido acessado por ninguém além do próprio autor.

Isso não invalida o estudo. Invalida a afirmação de verificabilidade. E numa área que trata de como a confiança é construída e aferida em sistemas de IA, a diferença entre as duas coisas é tudo.

→
Convite público

Se Wilson Silva ou a WS Labs publicarem a URL direta do repositório OSF com dados efetivamente acessíveis sem cadastro, este artigo será atualizado para refletir isso. A crítica não é à pesquisa — é ao processo de divulgação. Transparência resolve transparência.

GEO IA — Rodapé Editorial